Do território para o reconhecimento nacional: metodologia do Jabuti é certificada como Tecnologia Social
A Educação de Base Comunitária e Socioambiental (EBCS), criada pelo Centro Educacional Jabuti, recebeu a certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil. O reconhecimento valoriza uma trajetória construída a partir da convivência com crianças, adolescentes, famílias, educadores e com a própria comunidade.
Mais do que reconhecer um projeto, a certificação destaca uma forma de fazer educação que considera a realidade do território, valoriza os saberes comunitários e coloca crianças e adolescentes como participantes ativos da transformação social e ambiental.
Uma construção coletiva
A EBCS é resultado de muitos anos de experiências, aprendizados, tentativas, descobertas e trabalho coletivo no Núcleo Socioambiental do Jabuti.
A sistematização da metodologia foi conduzida por Marina Costa Machado Colombo, assistente social, e Moatan Ribeiro Pinhal, biólogo, permacultor e educador ambiental do Jabuti. A construção reuniu o olhar social e comunitário de Marina à experiência socioambiental desenvolvida por Moatan ao longo de mais de uma década junto às crianças e aos adolescentes atendidos pela organização.
Esse encontro de conhecimentos ajudou a organizar uma prática que já fazia parte do cotidiano do Jabuti e transformá-la em uma metodologia estruturada, capaz de ser compreendida, compartilhada e reaplicada em outros espaços.
Apesar da importância dessa sistematização, a EBCS não pertence apenas a duas pessoas. Ela carrega a participação das crianças, dos adolescentes, dos educadores, das famílias, dos parceiros e de todas as pessoas que contribuíram para a construção e o cuidado com o Núcleo Socioambiental.
É, verdadeiramente, uma tecnologia criada por muitas mãos.
Educação que começa na realidade das pessoas
A EBCS parte de uma ideia muito presente no trabalho do Jabuti: a educação não acontece somente dentro da sala de aula.
Ela também nasce das relações, das experiências compartilhadas, do contato com a natureza e da compreensão do território onde vivemos.
Por isso, a metodologia reúne educação ambiental crítica, vivências na natureza, permacultura, tecnologias socioambientais de baixo custo e construção coletiva. Mais do que apresentar conceitos sobre sustentabilidade, ela convida crianças e adolescentes a observar, experimentar, fazer perguntas, identificar problemas e participar da busca por soluções.
O trabalho também reconhece que os desafios ambientais não afetam todas as pessoas da mesma maneira. Em territórios periféricos, problemas como enchentes, esgoto a céu aberto, descarte irregular de resíduos, falta de áreas verdes e precariedade de infraestrutura fazem parte da vida cotidiana de muitas famílias.
Diante dessa realidade, falar de educação socioambiental também é falar de direitos, desigualdade, pertencimento e participação comunitária.
Indivíduo, grupo, espaço e território
A metodologia está organizada em quatro dimensões que se relacionam: indivíduo, grupo, espaço e território.
O percurso começa pelo reconhecimento de si e pelo desenvolvimento da autonomia. Depois, passa pela convivência com o outro, pelo trabalho coletivo e pelo cuidado com os espaços compartilhados. Por fim, amplia o olhar para a comunidade e para as relações sociais e ambientais presentes no território.
Nas atividades, as crianças e os adolescentes participam de rodas de conversa, momentos de reflexão, divisão de tarefas, vivências na natureza e construção de tecnologias socioambientais.
Canteiros educativos, composteira, minhocário, sistema de captação de água da chuva, meliponário de abelhas nativas e práticas agroflorestais são alguns exemplos das experiências que fazem parte desse processo.
Os participantes não recebem apenas uma explicação pronta. Eles observam, colocam a mão na massa, aprendem coletivamente e compartilham o que descobriram.
Crianças e adolescentes como agentes socioambientais
Na EBCS, crianças e adolescentes deixam de ser apenas participantes das atividades e passam a atuar como agentes socioambientais.
Eles aprendem, pesquisam, desenvolvem autonomia e compartilham conhecimentos com outras pessoas. Assim, aquilo que começa dentro do Jabuti pode chegar às famílias, às escolas, aos serviços públicos e a outros espaços da comunidade.
Ao receber visitas no Núcleo Socioambiental, os próprios participantes podem apresentar as tecnologias construídas, explicar como elas funcionam e compartilhar os aprendizados desenvolvidos ao longo das atividades.
Esse protagonismo mostra que crianças e adolescentes não são apenas o futuro. Eles fazem parte do presente e também podem contribuir para transformar a realidade ao seu redor.
Uma experiência que pode chegar a outros territórios
Receber a certificação como Tecnologia Social significa reconhecer que a EBCS apresenta uma resposta possível para desafios vividos pela comunidade e que sua metodologia pode ser compartilhada e adaptada a outras realidades.
A experiência desenvolvida em Jundiapeba pode inspirar escolas, organizações da sociedade civil, Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos e outras iniciativas interessadas em construir uma educação mais participativa, comunitária e conectada ao meio ambiente.
Não se trata de levar uma fórmula pronta para todos os lugares. Cada comunidade possui sua própria história, seus conhecimentos, suas necessidades e suas potencialidades. A proposta é oferecer um caminho que possa ser adaptado e reconstruído junto às pessoas de cada território.
Um reconhecimento que pertence a muitas mãos
Para o Jabuti, ver a EBCS reconhecida como Tecnologia Social é celebrar tudo o que já foi construído e, ao mesmo tempo, abrir novos caminhos.
Esse reconhecimento carrega a curiosidade das crianças, o protagonismo dos adolescentes, a dedicação dos educadores, os saberes das famílias, o trabalho de Marina e Moatan, o apoio dos parceiros e a participação de toda a comunidade.
É também a confirmação de que uma experiência criada dentro de um território pode atravessar fronteiras, inspirar outras comunidades e contribuir para uma educação mais consciente, humana e transformadora.
Porque quando o conhecimento nasce da realidade das pessoas e é construído com participação, cuidado e pertencimento, ele não fica parado: ele cresce, circula e transforma.
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